• Professor João Antonio

Alfabetização - Bola Dentro!

Saudações, meus amigos!


Há poucos minutos, consegui concluir a leitura do documento intitulado PNA (Política Nacional de Alfabetização) proposto pelo Governo Federal.

Tão logo concluí a leitura (a compreensão total ainda está em execução) do que o documento apresenta, resolvi trazer um resumo bem objetivo dos principais pontos deste arrojado conceito. Os pontos que precisam ser destacados estão listados abaixo:


1. CONHECIMENTO DO CENÁRIO ATUAL DA EDUCAÇÃO: Sem disfarces, enfeites, eufemismos ou hipocrisia, são apresentados os dados colhidos em anos de pesquisas e trabalhos científicos sobre a educação no Brasil, seja analisada internamente, seja analisada em comparação com outros países. Posso afirmar que a primeira é deprimente... e a segunda é pior ainda.


Para se ter uma ideia, quase 55% dos mais de 2 milhões de alunos que concluíram o 3o ano do Ensino Fundamental (em pesquisa do ANA - AVALIAÇÃO NACIONAL DA ALFABETIZAÇÃO - de 2016) são leitores “insuficientes” (abaixo das médias usadas como critérios para mensurar proficiência em leitura). É mais grave ainda quando (grifo meu) tais parâmetros de medição já são, per se, baixos demais.


Além dos problemas com leitura e escrita (aptidões imprescindíveis, desnecessário dizer, para o futuro acadêmico e profissional destas crianças), os dados da ANA de 2016 acusam insuficiência em matemática para quase o mesmo percentual de crianças (54% dos avaliados não eram capazes de realizar somas com parcelas de 3 dígitos ou associar valor monetário de um punhado de moedas ao valor de uma cédula).


Assim como em entidades como os Alcoólicos Anônimos, o árduo processo de correção passa pelo primeiro e decisivo passo de aceitar sua condição e o desejo sincero e determinado de mudá-la. Para qualquer um que lê o preâmbulo do documento do MEC, a situação da educação do Brasil é periclitante e mesmo as mais radicais providências, com foco em correção imediata (“apagamento de incêndios”, ou seja, em curto prazo), parecerão inócuas.


Bem, temos que começar por algum lugar. Identificar, aceitar o problema, ao invés de escondê-lo (ou fugir dele) é o melhor ponto de partida.


2. UTILIZAR PRINCÍPIOS CIENTÍFICOS (COMPROVADOS POR EVIDÊNCIAS) NA BASE DA POLÍTICA EDUCACIONAL: Desde a (aparentemente simplória) diferenciação dos conceitos de Alfabetização, Literacia e Numeracia (palavras que, por sinal, não recordo de ter lido em qualquer documento oficial) e transitando por preocupações como “Como saber se uma pesquisa apresenta uma evidência científica válida?”, a PNA apresenta um prato cheio de “novidades” em se tratando da forma como a alfabetização (escolarização inicial) deve ser aplicada e como ela vem sendo “aplicada”.


LEITURA E ESCRITA DEVEM SER ENSINADAS DE MODO EXPLÍCITO E SISTEMÁTICO… várias pesquisas (até então rejeitadas no Brasil) evidenciam que os processos de LER e ESCREVER não são tão intuitivos e “naturais” como o processo de FALAR. Ou seja, não se aprende a ler do mesmo jeito como se aprende a falar.


Particularmente, isso me causa um receio tremendo. Explico: já que o processo é necessário, e que é necessária uma sistemática organização no conteúdo e NA FORMA de explicar, o professor se torna o principal responsável pela aplicação bem sucedida deste método… SIM, eu tenho medo! Sabe por quê? Porque os professores que irão aplicar tal metodologia é o pedagogo que, ao longo de 4 anos de graduação aprendeu justamente o contrário - e que provavelmente poderá não se adaptar à maior exigência de suas aptidões didáticas por mais tempo em sala de aula.


Sim, tenho medo pelos alunos que têm em suas vidas professores ruins… Deus proteja esses jovens.


3. A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA - O CONTEXTO SOCIAL: sem clichês ou palavras de ordem eivadas de ideologia, o documento do MEC aponta clara e indiscutivelmente que existe, sim, um “abismo” entre as crianças de classes mais baixas e as que têm melhores condições financeiras (e educacionais, por conseguinte). Crianças mais pobres, com pais menos presentes e/ou menos instruídos, chegam ao tempo de alfabetizar-se com cerca de 30 milhões de palavras a menos em seu vocabulário oral, pela pouca interação verbal com seus familiares.


O Documento do MEC aponta para uma necessidade premente de proporcionar ambientes de estímulos linguísticos que possam compensar essa lacuna familiar, diminuindo, assim, a desigualdade inicial existente na “Literacia Emergente”, como o documento do MEC assim chama. Essa desigualdade, se mal sanada (ou não sanada), converte-se em desigualdades ainda maiores ao longo da vida acadêmica dos jovens… culminando em diferenças qualitativas de cognição que praticamente impossibilita a competição nivelada entre os dois casos (os bem iniciados e os mal iniciados) seja na escola, seja no mercado de trabalho.


Ou seja, o pobre mantém-se pobre, com poucas chances de ascender socialmente.


Este é o “efeito Mateus”, em alusão à parábola dos talentos, da Bíblia… quem recebe mais, poderá fazer mais… quem recebe menos e não se sente apto, não poderá crescer por falta de capacidade.


A LITERACIA FAMILIAR também é citada no PNA. O Estímulo à leitura em casa é um diferencial sensível para a evolução dos jovens na escola. Mas não se engane quem pensa que famílias mal alfabetizadas não são capazes de proporcionar ambientes adequados para que seus filhos possam ultrapassar os limites que elas mesmas não puderam. Há diversas práticas simples e eficazes de literacia familiar que beneficiarão, especialmente, as famílias de nível socioeconômico mais baixo, no intuito de diminuir as desvantagens entre suas crianças e as mais abastadas.


4. A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO MATEMÁTICO BEM CONSTRUÍDO: A matemática é, como todos sabem, de suma importância na vida de qualquer um, mesmo que esse “qualquer um” negue isso, ou afirme que odeia a matemática. Há diversas pesquisas que apresentam bem sucedidas experiências de ensino de matemática que podem trazer uma verdadeira revolução à nossa educação tão fragilizada. Essa revolução passa, é claro, pelo treinamento dos nossos professores - que se tornarão cada vez mais importantes nesses primeiros anos de escolarização.


Infelizmente, nossas faculdades de pedagogia desdenham o método de ensino, em sua maioria. E no tocante à matemática, esse desdém assume níveis preocupantes. Sim, há professores primários que não sabem simplificar uma fração - e se eles não entendem matemática, como podem ensinar (e desenvolver didática para ensinar) a matemática? Resposta: ELES NÃO CONSEGUEM, e quem sofre com isso são os alunos!


5. PREOCUPAÇÃO NA IDENTIFICAÇÃO DE “MODALIDADES ESPECIAIS” DE APRENDIZAGEM: incluindo o foco em transtornos específicos de aprendizagem. Uma sala de aula é um ambiente HETEROGÊNEO e o documento PNA do MEC parece, em muitos anos, finalmente explicitar isso. Ao propor o desenvolvimento de métricas e avaliações para detectar “desgarrados” (alunos acima da média da turma e alunos abaixo da média da turma), propondo satisfazer seus anseios ou suas lacunas, o MEC busca corrigir um erro comum a toda educação pública (estatal): a coletivização do conteúdo resultando na coletivização das individualidades (na prática, a “desconsideração” das individualidades).


EM RESUMO...


A Política Nacional de Alfabetização (PNA) é um documento extenso, de linguajar simples, sem preciosismos ou parnasianismos… É direto ao ponto e muito claro! Seu foco é a primeira infância, sem esquecer os jovens e adultos que já sofreram com os problemas em suas primeiras infâncias.


Pode não ser a solução de 100% dos problemas de educação que esse país apresenta, mas é um bom começo, com foco naquela que foi sempre preterida, porque não dava votos imediatos: a primeira infância. Onde todos os problemas e dificuldades nascem e onde devemos consertar para que parem de nascer daqui para a frente.


Estou muito satisfeito com o que li. Vou resumir ainda mais, com foco nas diretrizes e metas - mas isso é assunto para o próximo texto.


Abraços,



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"A Educação é importante demais para ser deixada nas mãos do governo! Liberte-se!